O Diário das <i>Nuticias</i>
Talvez corroído pelo tédio que a ausência de noticias propicias para desancar no Partido lhe viesse provocando, o jornalista de serviço no DN encarregue de maldizer o PCP decidiu, a pretexto do alegado silenciamento que o Partido impusera ás comemorações do centenário do nascimento de Bento Gonçalves, encontrar tema para a sua obsessiva missão.
Não vem para o caso, e até será o que menos importa conhecer, se o autor da peça sabe sobre o que escreveu ou se Bento Gonçalves era nome que alguma vez tivesse ouvido. Nem tão pouco importa fazer o esforço de levar o próprio a interrogar-se, a partir das declarações de alguns ex-membros do Partido que se aprestou a ouvir para corroborar a tese, porque tendo eles tão abundantes e generosos espaços disponibilizados na comunicação social não encontraram ao longo de todo o ano que findou o espaço, por mínimo que fosse, para intercalar nos milhentos parágrafos de ataques ao Partido para assinalar a efeméride. O que sobretudo interessa reter desta peça jornalística são três aspectos.
O primeiro para fazer notar que se o autor tivesse querido inteirar-se seriamente, como seria suposto ser seu dever enquanto profissional, junto do PCP teria ficado a saber que Bento Gonçalves teve a passagem do centenário assinalada por uma exposição durante todo o ano de 2002 na sede central do Partido, presença no pavilhão central da Festa do Avante, evocação no Avante e Militante, presença nos «destaques» do sitio do PCP na Internet que lá se mantém.
O segundo para anotar que o comovente desvelo com que o autor da peça do DN correu atrás das pouco inocentes insinuações de alguns sobre o alegado silenciamento que o PCP impusera a Bento Gonçalves contrasta com o ensurdecedor silêncio com que ele, e o seu jornal, destinaram à iniciativa que em Outubro de 2000 levou o secretário geral do PCP a Fiães do Rio ao descerramento de uma placa na casa onde nasceu Bento Gonçalves.
O terceiro e último para dar nota que tivesse o PCP num ano denso de exigentes batalhas políticas conseguido dar expressão mais significativa à questão e teríamos o autor a descarregar todo o arsenal de acusações sobre um partido agarrado ao passado, vivendo de efemérides e sem futuro.
Assim estamos em matéria de algum jornalismo. Talvez não tão chocante quanto a sessão de strip tease que um canal privado de televisão oferece a pretexto da apresentação de noticias por uma aspirante a jornalista. Mas seguramente tão despido de regras, de respeito pela verdade de informação e de ética deontológica quanto a nudez forçada para comprar audiências ou leitores. As fronteiras entre Nuticias e Noticias esbatem-se dramaticamente nas mãos de alguns que se ocupam a escrever em jornais.